Sinopse: AMOR PURO — ANOS 80 — FITA K7 — JOVENS SOLITÁRIOS — MÚSICA COMO SALVAÇÃO — CIDADES QUE SANGRAM — U2 — DESTINOS CRUZADOS — FINALE TRÁGICO — NOSTALGIA VISCERAL — NOVA YORK — KANSAS CITY — NOVA IGUAÇU “Tudo Acabou Ontem” é cruel com o amor puro. É um romance instigante que se divide entre três cidades — Nova York, Kansas City e Nova Iguaçu — mas todas elas gravitam em torno da mesma pergunta: o que acontece com os amores que não podem ser vividos? Na linha do tempo da obra, há cartas que não chegam, músicas que resistem, lembranças que persistem e um mundo que, aos poucos, perde o cheiro, o toque e o olhar direto. A escolha de ambientar a história no início dos anos 80 não é apenas estética. É uma declaração de princípios.
Resenha:
Tudo Acabou Ontem, de Mario Marques, nos leva aos anos 1980 por meio de três histórias atravessadas por encontros, perdas e pela música. Primeiro conhecemos Geddy, um adolescente de Kansas City apaixonado por rock que decide ir até o Colorado para assistir ao U2 no Red Rocks. Depois, em Nova York, acompanhamos Paddy, um coletor de lixo que encontra nas cartas descartadas por Cora uma janela para a vida daquela mulher. Por fim, a narrativa chega a Nova Iguaçu, onde Franco observa, de seu velho banco de pedra, uma mulher chamada Evie e um casamento que parece existir apenas na aparência.
Demorei um pouco para perceber o tamanho da ligação entre essas histórias, e foi justamente isso que mais gostei na construção do livro. Mario Marques espalha conexões sem anunciá-las. Um personagem que parecia apenas uma passagem na trajetória de Geddy reaparece ligado à vida de Cora e ganha ainda outra dimensão quando chegamos ao Brasil. Quando comecei a reconhecer nomes, discos, lugares e pequenos acontecimentos, passei a prestar atenção em tudo.
E U2 não está aqui apenas para compor a ambientação dos anos 80. Boy, October e War atravessam as três partes e assumem significados diferentes dependendo de quem está ouvindo. Para um personagem, aquelas músicas representam descoberta e coragem. Para outro, carregam lembranças que doem. Em outro momento, viram uma tentativa de dizer através de uma fita cassete aquilo que não se consegue falar pessoalmente. Achei muito interessante perceber como os mesmos discos podem guardar histórias completamente diferentes.
Também gostei bastante da ambientação. O ônibus rumo ao Colorado, a chuva em Red Rocks, as lojas de discos de Nova York, as fitas TDK, o Walkman, o Atari, o Fiat 147, a Copa de 1982 e a ladeira de Nova Iguaçu não estão ali apenas como referências nostálgicas. Esses elementos dão identidade aos personagens e fazem a década realmente participar da narrativa.
O livro fala muito sobre pessoas tentando ser vistas. Geddy, Paddy e Franco vivem isso de maneiras distintas, enquanto as mulheres que cruzam seus caminhos carregam ausências, escolhas e dores que eles nem sempre conseguem compreender. E existe uma melancolia crescente porque nós também começamos a enxergar aquilo que os personagens ainda não conseguem.
A escrita de Mario Marques é bastante visual e tem algo de cinematográfico, principalmente nas cenas conduzidas pela música. O autor também sabe recuperar detalhes aparentemente pequenos mais adiante, fazendo com que certas coincidências ganhem outro peso quando entendemos a ligação entre os personagens.
Indico especialmente para quem gosta de dramas humanos, histórias interligadas, romances marcados por desencontros e livros em que música, memória e época fazem parte da própria narrativa.
Disponível na Amazon e Kindle Unlimited.
Qual música você escolheria para guardar uma lembrança que não queria perder?
Classificação: 5/5

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