Sobre o livro:
Sinopse: Santa Clara é uma cidade pequena, sustentada por acordos silenciosos, filantropia estratégica e uma prosperidade que cheira a sangue. A ordem estabelecida começa a ruir quando um assassinato ritualizado é transmitido ao público como um manifesto. O responsável, um homem conhecido apenas como "Alfaiate", não se vê como um criminoso, mas como um corretor moral, alguém dedicado a "remover defeitos" de um sistema apodrecido. Chamado às pressas, Dante Nogueira, um delegado marcado por erros do passado e pela desconfiança institucional, assume a investigação em meio a uma cidade que não quer ser salva, quer apenas continuar funcionando. À medida que a caçada avança, a linha entre justiça e perversão se dissolve. E Dante descobre que o maior obstáculo não é o assassino em série, mas a teia de poder que o cerca. Em Santa Clara, ninguém é completamente inocente, e talvez o maior pecado seja fingir que não se sabe disso.
Resenha:
A Última Caçada de Santa Clara, de Radu Zargaio, é um suspense policial que nos leva a uma cidade aparentemente pacata, sustentada economicamente pelo frigorífico Boi Negro e por uma rede de relações em que poder, influência e silêncio caminham juntos. Tudo muda quando um homem usando uma máscara de porcelana, conhecido como Alfaiate, transforma seus crimes em uma espécie de julgamento público. Para encontrá-lo, o delegado Dante Nogueira é chamado de volta à ativa e logo percebe que investigar o assassino significa também mexer em segredos que Santa Clara prefere manter enterrados.
Gostei especialmente de como a investigação cresce, pois Dante começa procurando padrões em desaparecimentos, acidentes e suicídios antigos, e o arquivo morto da delegacia acaba se tornando praticamente o coração da caçada. É ali que sua parceria com o soldado Lima ganha força. Dante tem experiência, desconfiança e um passado que ainda pesa; Lima traz conhecimento de tecnologia e forense digital. Os dois funcionam muito bem juntos justamente porque não parecem uma dupla pronta desde o início. A confiança vai sendo construída enquanto cada nova pista amplia o tamanho do problema.
E Santa Clara foi uma das coisas que mais me chamaram atenção, já que acidade não funciona apenas como cenário. O frigorífico dita seu ritmo, o jornal interfere na percepção da população, empresários e políticos circulam pelos mesmos espaços e pequenos acordos parecem valer mais que procedimentos oficiais. Quanto mais Dante investiga, menos importa descobrir apenas quem está por trás da máscara. A pergunta passa a ser até onde aquela estrutura está contaminada.
O Alfaiate também foge do criminoso que mata simplesmente pelo prazer de matar. Ele acredita estar realizando uma “limpeza”, escolhendo pessoas cuja imagem pública esconde corrupção, interesses ou hipocrisia. Isso cria um desconforto interessante porque o livro nunca precisa transformar suas vítimas em inocentes para deixar evidente o horror do método. Quando Dante entende que está diante de alguém que se considera quase um missionário moral, a investigação ganha outra dimensão.
A presença da imprensa dentro do conflito é inserido de forma bem objetiva na narrativa. Sandra Meirelles não fica apenas observando a investigação de fora, e as decisões sobre o que publicar, esconder ou transformar em espetáculo mostram como uma narrativa pública pode ser tão poderosa quanto uma prova.
Os capítulos em formato de “registros” combinam muito com a proposta e mantêm a sensação de avanço constante. Pistas físicas, arquivos antigos, dados digitais, jogos de influência e falsas aparências vão se encaixando sem deixar a história restrita a uma investigação tradicional. E algumas certezas que eu formei durante a leitura precisaram ser revistas.
Indico para quem gosta de suspense policial com corrupção, investigação, assassino serial, jogos de poder e personagens que precisam descobrir não apenas quem cometeu os crimes, mas quem se beneficia do silêncio ao redor deles.
Disponível na Amazon.
Em Santa Clara, você confiaria mais na polícia, na imprensa ou em ninguém?
Classificação: 5/5

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