Sobre o livro:
Sinopse: O LAÇO ENTRE AVÓ E NETA TORNA-SE UM CAMINHO DE CURA PARA AS DUAS MULHERES EM UMA EMOCIONANTE SAGA FAMILIAR. Liv Kuo é uma chef de cozinha em ascensão em Nova York… até que um trauma devastador a aprisiona dentro do próprio apartamento em Manhattan. O único chamado capaz de tirá-la da paralisia vem do outro lado do mundo: um pedido urgente de Ah-Ma, sua amada avó que vive em Taiwan. Ah-Ma precisa da ajuda de Liv para desvendar um segredo guardado por mais de sessenta anos ― encontrar a quarta filha, uma tia que Liv nem sabia que existia, arrancada de seus braços ainda bebê. A missão parece impossível. Ao chegar a Taiwan, Liv mergulha no passado doloroso da avó, marcado pela época da lei marcial. Enquanto revive as escolhas difíceis de Ah-Ma e sua busca incansável por uma menina desaparecida, ela se deixa guiar pelos aromas, sabores e tradições que sempre uniram a família. Entre as páginas de um antigo livro de receitas e pistas esquecidas pelo tempo, Liv desenterra uma traição devastadora que abala tudo o que acreditava sobre suas origens ― e que pode conter a chave para curar suas próprias feridas. Uma jornada profunda sobre as marcas invisíveis que carregamos, os segredos familiares e o poder transformador das tradições. Às vezes é preciso percorrer longos caminhos para finalmente se sentir em casa.
Resenha:
O detalhe que mais ficou comigo em A Quarta Filha foi um caderno de receitas. Durante décadas, Yi-Ping anota pratos pensando na filha que perdeu, como se cozinhar aquilo que a menina gostava pudesse, de alguma maneira, manter um caminho aberto para que ela voltasse para casa. E foi justamente aí que percebi que Lyn Liao Butler estava contando essa história de um jeito muito mais íntimo do que eu esperava.
Em 1959, em Taiwan, Yi-Ping dá à luz sua quarta filha. Para o marido, supersticioso e obcecado pela chegada de um menino, aquela criança representa azar. Pouco tempo depois, Yili desaparece de sua vida. Mais de sessenta anos se passam até Yi-Ping acreditar que finalmente a viu novamente em uma rua movimentada de Taichung.
No presente, quem recebe o pedido para ajudá-la é Liv, sua neta de 35 anos. Chef em Nova York, Liv também está tentando sobreviver a algo que mudou completamente sua rotina e sua relação com o mundo. Viajar para Taiwan começa como uma missão pela avó, mas logo a coloca diante de uma história familiar que ninguém lhe contou inteira.
Gostei muito da estrutura alternando passado e presente porque as revelações não aparecem somente como ferramentas para criar suspense. Cada mudança de perspectiva modifica um pouco aquilo que acreditávamos saber sobre determinadas pessoas. Em vários momentos, julguei uma escolha e, páginas depois, precisei reconsiderá-la ao conhecer o outro lado.
Yi-Ping foi a personagem que mais me marcou. Acompanhamos uma mulher muito jovem inserida em uma família poderosa, criada para obedecer ao marido e praticamente sem autonomia sobre os próprios filhos. Sua procura por Yili atravessa décadas, mas o livro não reduz sua existência a essa dor. Há amizade, maternidade, culpa, resistência e uma vontade enorme de conquistar a própria liberdade.
Adorei o modo como a culinária entra na narrativa. Mue, ròugēng, jiaozi, niú ròu miàn, tofu, omeletes e comidas de rua aparecem ligados a lembranças, pessoas e afetos. Como Liv é chef, conhecer Taiwan também significa redescobrir sabores que ela havia considerado simples demais para sua carreira. Aos poucos, cozinhar com a avó deixa de ser apenas memória e passa a ajudá-la a entender quem ela é.
E o livro ainda coloca essa família dentro de um Taiwan marcado pela lei marcial, pelo Terror Branco e pelo poder do Kuomintang. Essas partes tornam a leitura mais pesada em determinados momentos, principalmente quando acompanhamos o que algumas mulheres precisaram suportar em uma sociedade que lhes oferecia pouquíssimas escolhas.
Há romance no caminho de Liv, mas, para mim, ele funciona melhor como complemento. O que realmente sustentou minha leitura foram as mulheres, os segredos familiares, a busca por pertencimento e a forma como decisões tomadas décadas antes continuam atravessando gerações.
Eu indicaria especialmente para quem gosta de ficção histórica misturada a drama familiar, histórias sobre mães e filhas e narrativas em que o passado vai sendo reconstruído aos poucos. A Quarta Filha me ganhou justamente porque não trata memória como algo distante: ela está na comida, nos silêncios e naquilo que uma família escolheu não contar.
A obra está disponível na Amazon.
Se você descobrisse um segredo de família guardado por mais de 60 anos, iria querer saber toda a verdade?
Classificação: 5/5

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