Resenha: Dimerval Mula Manca - Itamar Camilo

 Sobre o livro:




Sinopse: "Você, leitor, tem em mãos um livro potente, que cria um universo único, por meio do “enxugamento” das emoções de seus personagens. Tem um ar proustiano esse livro, com um tempo de olhar para dentro de cada existência mínima, de personagens que vivem no limite da linguagem, e é aí que Itamar encontrar seu material precioso, posto que a literatura se faz mais com o que não se diz, mais com o silêncio do que com as palavras. O livro de Itamar é uma pequena joia, exigente e única. Não há como não reparar no trabalho hercúleo que ele teve para escrever esse romance. Em cada linha fica explícito seu empenho em criar um universo coeso e muito particular, por meio de uma forma de escrita densa e, ao mesmo tempo, lúdica. [...] Não há como não sair destas páginas estupefato pelo que esse novo autor conseguiu fazer: criar um universo que, se por um lado se fixa em uma tradição literária brasileira, por outro a expande e traz um novo olhar, uma nova forma de se lidar com essa tradição, desdobrando-a, insuflando ar dentro dela."


Resenha: O autor Itamar Camilo, em sua estreia no romance, presenteia os leitores com "Dimerval Mula Manca", uma obra que desafia a linearidade narrativa e convida a refletir sobre a vida, a morte e as estranhas intersecções entre esses estados. A abertura do livro é uma declaração de intenções: “Dimerval Mula Manca morreu.” Com essa sentença, o texto explora um universo onde a fatalidade é uma constante e a curiosidade impulsiona a mergulhar nas tramas da existência.

Logo de início, há a apresentação ao protagonista, Dimerval, já em sua ausência, uma escolha ousada que provoca questionamentos: quem foi esse homem? E como sua vida, agora encerrada, reverbera nas relações que deixou para trás? 

O autor habilmente apresenta Jucélio Pé de Boi, um personagem que emerge nas páginas como uma âncora para o leitor, mas que também instiga a considerar o papel que cada indivíduo desempenha em um contexto social mais amplo.

A ambientação, rica em detalhes e características regionais, transporta o leitor para um cenário único. Os personagens ganham vida através de suas peculiaridades: Dona Margarida, a mãe de Dimerval, simboliza a tradição e o peso da memória familiar; Geninho, o irmão caçula, traz uma inocência que contrasta com a complexidade do que ficou para trás; e Dalinha, a irmã que se torna a matriarca em um espaço que deveria ser da mãe, desafia as normas estabelecidas em busca de seu próprio lugar.

A linguagem é compreendida de forma poética e reflexiva, onde cada frase parece um eco de dilemas existenciais. Faz questionar o sentido do esforço para evitar viver, enquanto apresenta os caminhos que cada personagem percorre. Os apelidos associados a animais não são meras curiosidades; eles carregam significados e simbolismos que refletem a essência e a condição de cada um, ampliando o entendimento do leitor sobre a identidade social e os laços familiares.

A narrativa é uma tapeçaria intricada de relações, memórias e ressentimentos, onde o ato de morrer se torna uma metáfora para a vida não vivida, as oportunidades perdidas e a luta incessante por reconhecimento. À medida que a história avança, a pergunta “o que significa realmente viver?” ecoa, e a morte de Dimerval se torna um catalisador para o renascimento dos que ficam.

Essa é uma obra que transcende a mera narrativa de um homem e sua morte; é um convite a olhar para dentro de nós mesmos e para o que realmente importa nas teias das nossas existências. Com um estilo que é ao mesmo tempo acessível e poético, Itamar Camilo entrega uma leitura que é tão cativante quanto profunda, deixando no leitor a marca indelével da reflexão sobre a vida e suas múltiplas facetas. É uma jornada que, embora comece com a morte, revela-se uma celebração da complexidade da vida.

Questionamento ao leitor:
Antes de mergulhar na leitura de "Dimerval Mula Manca", de Itamar Camilo, pergunte-se: **Como a morte de um personagem pode nos levar a refletir sobre a vida que ele viveu e as relações que deixou para trás?** Este questionamento pode abrir portas para uma leitura mais profunda, permitindo que você explore as nuances das experiências dos personagens e as estradas que cada um escolheu percorrer. O que as histórias de Dona Margarida, Geninho e Dalinha podem revelar sobre a complexidade das dinâmicas familiares e a luta por identidade? Estando ciente de que o protagonista já se foi, como isso transforma sua conexão com a narrativa e as descobertas que ainda estão por vir?

Trilha sonora:
Uma música internacional que representa bem "Dimerval Mula Manca" é "Death with Dignity" de Sufjan Stevens. Essa canção aborda temas de perda, memória e a complexidade das relações familiares, refletindo a melancolia e a introspecção presentes na obra de Itamar Camilo.
Outra opção é "Creep" do Radiohead, que expressa sentimentos de inadequação e a busca por identidade, ecoando as lutas internas dos personagens e as estradas distintas que percorrem em suas vidas. Ambas as músicas capturam a essência da reflexão sobre a vida e a morte, tornando-se trilhas sonoras poderosas para a leitura do livro. 

Classificação: 5/5

Comentários

Anônimo disse…
Não gostei. Sou uma pessoa com deficiência e achei que a história não alcança a complexidade da experiência. Embora a história provoque reflexões sobre discriminação, reforça estereótipos. Ademais a fragmentação da história dificulta a imersão do leitor e isso prejudica a conexão emocional com os eventos, o que é muito importante para uma experiência enriquecedora de leitura. Por fim, a linguagem hermética é excessiva e isso é contraditório com a proposta do livro de promover uma crítica social à marginalização.