Resenha: Pássaro de Fogo: O Talismã de Yelnya, Marcel Bennet

  Sobre o livro:





Sinopse: Quando as forças nazistas investiram contra o Leste naquela madrugada de domingo, a maioria dos soviéticos, alheios à tragédia que se avizinhava, ainda dormia. O comunicado oficial do Governo, somente o receberiam várias horas mais tarde, numa interrupção da programação de rádio habitual. O mundo em que viviam estava prestes a ruir, levando consigo vidas, sonhos e aspirações. Assim se deu também para o estudante Pavel Mikhailovich Petrov, ironicamente, em um dos momentos mais belos de sua vida. Arrebatado de sua realidade, Pavel é lançado às frentes, onde sobrevive a sangrentos embates com os alemães. Os encontros repetidos com a morte, contudo, terminariam por brindá-lo com uma singular aptidão para o tiro à distância. Mais tarde, ao ver-se entre as ruínas de Stalingrado com seu rifle, reflete sobre seu papel na guerra e a natureza humana, paradoxalmente frágil e brutal. E contempla a desolação da cidade que talvez represente a última chance de rever sua família e Irina – a paixão perdida ao início da guerra. Cônscio de que não há tempo para tantas conjecturas, Pavel toma seu lugar no alto do prédio fumegante. Reinicia-se a caçada. A visão dos olhos do inimigo através da luneta do rifle, entretanto, perturba-o: ele matará outra vez. O dedo afrouxa num instante de hesitação; então, num impulso,comprime o gatilho. Estará ele fadado a matar até morrer? A sobrevivência torna-se uma frágil esperança em Stalingrado. O destino, todavia, poderá pregar-lhe uma última peça...


RESENHA | PÁSSARO DE FOGO: O TALISMÃ DE YELNYA

Quando penso em Pavel Mikhailovich Petrov, a primeira imagem que me vem à cabeça não é a de um sniper escondido entre as ruínas de Stalingrado. É a de um jovem saindo da fábrica, passando rapidamente em casa para encontrar a mãe e seguindo de bicicleta para a universidade, onde estudava engenharia e tentava disfarçar, sem muito sucesso, o quanto a presença de Irina o deixava desconcertado.

Foi importante conhecer esse Pavel antes do rifle. Antes da fome, da neve, dos companheiros mortos e da necessidade de calcular se havia um atirador alemão escondido do outro lado de uma rua. Marcel Bennet primeiro nos apresenta uma vida comum, com trabalho, estudos, partidas de xadrez, provocações da irmã Anna e uma paixão que começava a ganhar espaço. Só depois permite que a guerra entre nela e desorganize absolutamente tudo.

Quando Pavel conversa com Anna sobre a possibilidade de uma invasão alemã e demonstra acreditar que a União Soviética jamais seria surpreendida, nós já sabemos o que ele ainda não sabe. E essa cena, aparentemente tão cotidiana, ganhou outro peso para mim. Enquanto os irmãos discutem Hitler e os avanços alemães pela Europa, Pavel ainda pensa em provas, no laboratório e em Irina. A guerra já está se aproximando, mas a vida dele ainda não percebeu.

A relação com Irina funciona muito bem nesse contraste. O início é tímido, cheio de hesitações e pequenos gestos. Pavel fica nervoso perto dela, mede palavras, interpreta sorrisos. Parece quase outra pessoa quando pensamos no homem que, mais tarde, precisará sobreviver ao frio, à fome, às perdas e aos combates.

A transformação dele é justamente o ponto que mais me envolveu. Marcel Bennet não constrói um protagonista indiferente à violência. Mesmo quando Pavel desenvolve aptidão para o tiro à distância, permanece a consciência de que existe uma pessoa do outro lado da mira. A guerra exige decisões rápidas, mas a mente continua carregando cada escolha.

A ambientação também merece destaque. Saímos da vida cotidiana em Voronezh para uma União Soviética tomada pela guerra e, posteriormente, para a devastação de Stalingrado. Neve, ruínas, fome, corpos e cidades destruídas aparecem sem transformar a narrativa em uma sucessão mecânica de batalhas. Existe sempre alguma lembrança de casa, da família ou de Irina atravessando aquilo tudo.

E é aí que a lenda do Pássaro de Fogo ganha ainda mais sentido. Logo no início conhecemos a ave mítica capaz de surgir quando tudo parece perdido. Durante a leitura, essa imagem de esperança diante de forças gigantescas vai encontrando ecos na própria trajetória de Pavel. Não como uma promessa de que tudo dará certo, mas como a necessidade humana de continuar procurando alguma luz mesmo quando quase não existe motivo para isso.

A escrita de Marcel é detalhada, sensível e por vezes bastante elaborada. Algumas construções são mais rebuscadas e pedem uma leitura um pouco mais atenta, especialmente em trechos descritivos, mas isso também dá ao romance uma identidade própria e combina com o tom histórico da narrativa.

Grande parte das ficções sobre a Segunda Guerra que já passaram pelas minhas mãos concentra o olhar em outros territórios europeus. Nesse cenário, acompanhamos o conflito a partir do solo soviético, com sua geografia, seu cotidiano e personagens diretamente atravessados pela invasão alemã.

O romance oferece esperança, mas não suaviza a guerra. Há amor, saudade e desejo de reencontro convivendo com medo, culpa, morte e incerteza. E justamente por conhecermos o Pavel anterior ao conflito, cada perda ganha um peso diferente. No fim, Pássaro de Fogo fala de sobrevivência, mas também pergunta o que resta de uma pessoa depois que sobreviver exigiu tanto dela.

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Classificação: 5/5

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