O Templo do Senhor: Induere Salomonem, de Isabella Fabiano, acompanha Isolda, uma ex-ocultista dividida entre a fé, as próprias visões e a presença de Elias, e Inocêncio, um pastor afastado que chega a Cacimbora procurando uma aliança capaz de aproximá-lo de Deus sem renunciar aos desejos. O que começa com conversas à janela transforma-se em um pacto envolvendo Salomão, um templo em ruínas e aquilo que cada um acredita ter perdido.
A autora explica no prefácio que Isolda e Inocêncio existiram e que muitos dos diálogos nasceram de conversas reais. Isso deixa a leitura mais desconcertante, pois o livro nunca oferece uma fronteira segura entre experiência mística, elaboração psicológica, fantasia e delírio.
Isolda foi quem mais despertou minha curiosidade. Inteligente, irônica e difícil de enquadrar como vítima ou manipuladora, ela testa Inocêncio e parece sentir prazer em governar o desejo alheio. Suas cartas, porém, revelam uma mulher mais solitária e vulnerável do que aquela que recebe o pastor com respostas cortantes.
Inocêncio é igualmente contraditório. Ele deseja ser pastor, marido e um novo Salomão, mas tenta encaixar Deus dentro de uma vontade que já decidiu satisfazer. Em vários momentos ri de sua literalidade, especialmente nas cenas da cadeira sob a janela. Só que o humor rapidamente dá lugar ao incômodo. Quanto mais ele tenta controlar mulheres, fé e desejo, mais percebemos que não governa nem a si mesmo.
Isabella usa capítulos curtos, cartas, regras ritualísticas e visitas ao Templo para alterar o ritmo sem quebrar a unidade. Os diálogos são ágeis, provocativos e carregados de humor ácido. O Templo surge com uma imagética perturbadora: círculos, cedro, mulheres adormecidas, soldados mortos, a mulher de verde e um íncubo com traços de corvo. Esses elementos ampliam as discussões sobre poder, submissão, culpa, desejo e perda da inocência.
Gostei de como a obra incomoda sem oferecer personagens moralmente confortáveis. Isolda e Inocêncio se atraem enquanto tentam transformar um ao outro conforme as próprias carências. A religião não aparece como decoração, mas como linguagem de disputa. O erotismo é explícito e muitas vezes desconfortável, usado para questionar consentimento, controle e a facilidade com que alguém converte desejo em justificativa.
É uma leitura adulta para quem gosta de fantasia sombria, ocultismo, simbolismo religioso e personagens contraditórios. Não é um romance convencional nem uma história leve. Seu interesse está na dúvida sobre quem conduz quem e sobre quanto do sobrenatural pode nascer daquilo que alguém deseja acreditar.
Você entraria em um templo sem saber o que precisaria deixar nele?

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