Resenha: As Gaiolas - Patricia Cruz

  Sobre o livro:







Sinopse: Quem é você? A obra As Gaiolas situa-se entre o lúdico, o empírico e a profundidade do Ser. Por meio de um cenário fantástico, evoca ensinamentos ancestrais sobre meditação e espiritualidade e traz a revelação gradativa de ferramentas que conduzem o interlocutor ao autoconhecimento e à autotransformação. Para isso, Duna, uma inquieta estudante universitária, é inspirada por uma coruja falante a iniciar seus primeiros passos rumo ao infinito de si mesma e se depara com duas estradas: uma visível e outra invisível, como planos paralelos conduzindo-a a retirar seus véus de ilusão e a seguir ao encontro de seu "Eu Verdadeiro".

Resenha: 

As Gaiolas, de Patricia Cruz, acompanha Duna, uma estudante de Ciência da Computação ansiosa, inquieta e acostumada a preencher cada silêncio com pensamentos. Sua rotina começa a mudar quando uma coruja falante aparece em seus sonhos e revela que sua ampulheta sagrada foi virada. A partir daí, Duna passa a acessar universos paralelos e recebe uma missão aparentemente grandiosa: transformar sombra em luz. O que ela demora a perceber é que esse trabalho precisa começar dentro dela.

O título foi ganhando novos significados durante a leitura. As gaiolas não são prisões físicas, mas pensamentos automáticos, crenças, medos, desejos, julgamentos e experiências passadas que continuam determinando nossas reações. Duna acredita estar apenas observando o mundo, quando, muitas vezes, enxerga projeções construídas por seu próprio sistema. Gostei especialmente de acompanhar essa diferença entre ver uma situação e perceber o significado que ela imediatamente atribui ao que viu.

A fantasia torna conceitos abstratos mais acessíveis. A Gaiola dos Pensamentos, a ampulheta, o caroço grudento, as camadas de sombra e o pó mágico formado por sabedoria, amor e poder não estão ali apenas para ornamentar o universo. Cada elemento traduz uma etapa do processo de autoconhecimento de Duna. Até suas partes internas ganham formas e personalidades próprias. Birna, Gafanhoto, Rainha Amarela, Unicórnio e Medronta mostram, com bastante humor, como uma mesma pessoa pode carregar raiva, racionalidade, superioridade, espontaneidade e medo, às vezes quase ao mesmo tempo.

Duna foi o ponto que mais funcionou para mim. Ela questiona tudo, interrompe explicações, interpreta conceitos espirituais de maneira literal e tenta transformar o despertar em um planejamento organizado. Sua tagarelice mental poderia tornar a leitura pesada, mas acaba criando identificação e também situações divertidas, principalmente nos encontros com Xingó. O curandeiro ensina enquanto brinca, muda de aparência, inventa demonstrações absurdas e desmonta a seriedade excessiva da aprendiz.

Também achei importante que o desenvolvimento não aconteça em linha reta. Duna compreende uma lição, esquece, reage no automático e precisa olhar novamente para aquilo. Essa repetição faz sentido dentro da proposta, pois mudar um padrão não significa eliminá-lo depois de uma única descoberta. A meditação, por exemplo, não aparece como uma solução instantânea, mas como um exercício difícil de presença, observação e aceitação.

Por trás da atmosfera lúdica, a narrativa toca em abandono, necessidade de aprovação, medo da intimidade, ressentimento e perdão. O relacionamento com Guilherme ajuda a trazer essas questões para situações comuns, mostrando como antigas associações podem interferir até nos momentos de carinho. A parte espiritual permanece ligada à experiência concreta da personagem, ao corpo e às escolhas cotidianas.

Indicaria As Gaiolas principalmente para leitores interessados em fantasia espiritualista, meditação e jornadas de autoconhecimento apresentadas por meio de símbolos. É uma leitura que pede abertura para acompanhar explicações e observar, junto de Duna, aquilo que normalmente acontece dentro de nós sem ser percebido.

Disponível na Amazon e no Kindle Unlimited.

Qual gaiola invisível seria mais difícil para você reconhecer?
 
Classificação: 5/5

Comentários