Resenha: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DA RAZÃO: O Panteão das Almas Exatas (O TRIBUNAL DAS ALMAS Livro 1)

 Sobre o livro:





Sinopse: “Ao Verme que primeiro roeu as frias carnes do meu Raciocínio, dedico estas Memórias — que não são de um mestre, mas de um Defunto.” — Se esperas afagos, fecha este Livro. A Cortesia é uma linha curva. A Verdade, uma Reta implacável. Nas estantes dos vivos, a Ciência é asséptica, forjada em mármore e ídolos de gesso. Mas a Eternidade, meu incauto mortal, é um tribunal onde a Vaidade não prescreve. — Em Memórias Póstumas da Razão – O Panteão das Almas Exatas (Volume I), os deuses intocáveis do teu letramento despencam de seus pedestais para um acerto de contas banhado a Fel, Ironia e tinta de Xilogravura. Verás Newton e Leibniz aos tapas pela primazia do Cálculo — enquanto Émilie du Châtelet os faz calar com um punho rendado. Verás Euclides espumar de cólera por ter sido encurralado na própria Capa. Verás Fermat rir de ti porque a sua demonstração “não coube nesta Margem”. Verás Hipátia, Pitágoras, Gauss, Lovelace e Germain — cada um com a sua cicatriz, cada um com o seu osso a roer. — Escrito com a Pena da Galhofa e a Tinta do Desencanto, este Tomo não é um compêndio. É um Velório com palpites. A Morte nunca cura a Vaidade; só a mumifica. E quando julgares que a Razão venceu, ouvirás um Violino que não obedece a Euclides. — Abre a Capa. Nós, os mortos, temos a Eternidade. Tu, leitor, nem tanto. — Este é o Volume I da trilogia O Tribunal das Almas. O Volume II, Memórias Póstumas da Ciência – O Panteão das Almas Empíricas, já está disponível para pré-venda. “E se sobreviveres a ambos… ainda te aguarda o derradeiro círculo: o Panteão dos Arquitetos do Caos (Volume III).”

Resenha: 

Memórias Póstumas da Razão: O Panteão das Almas Exatas, de Leandro D’Lima, transforma grandes nomes da matemática e da ciência em habitantes de um sarau no Além, onde a morte não foi suficiente para acabar com vaidades, rivalidades e velhas contas a acertar. Euclides, Tales, Pitágoras, Hipátia, Newton, Leibniz, Émilie du Châtelet, Fermat, Gauss, Ada Lovelace e Sophie Germain assumem a própria voz para revisitar suas descobertas, fracassos e disputas, enquanto um defunto autor observa tudo com uma ironia nada discreta.
O que mais gostei foi perceber que a matemática não aparece como enfeite para sustentar a proposta. Ela faz parte da própria piada. Tales explica proporções a partir das sombras, Pitágoras precisa encarar o inconveniente √2 dentro de sua ideia de harmonia, Newton perde a paciência com a história da maçã e Fermat parece se divertir até depois de morto com a famosa demonstração que não coube na margem.
E foi justamente Fermat um dos capítulos que mais me divertiu. A personalidade criada para ele combina perfeitamente com o matemático que deixa um problema para a posteridade e simplesmente vai embora. Gauss também rende ótimos momentos, principalmente quando relembra o cálculo de 1 a 100 que resulta em 5050 e transforma sua genialidade precoce em mais um motivo para olhar os demais do alto.
Mas o humor não impede o livro de tocar em questões bem menos engraçadas. Hipátia, Émilie, Ada e Sophie mostram diferentes maneiras pelas quais mulheres produziram conhecimento em espaços que frequentemente preferiam enxergá-las como exceções, curiosidades ou sequer enxergá-las. Gostei especialmente de Sophie precisar escrever como Monsieur Le Blanc para que suas ideias fossem levadas a sério e de Ada enxergar na Máquina Analítica possibilidades que iam muito além de simplesmente fazer contas.
Outro acerto são as Notas Técnicas. Quando a narrativa menciona proporcionalidade, números irracionais, gravidade, integral, distribuição normal, algoritmos ou números primos, o livro interrompe a galhofa por alguns instantes para explicar o conceito sem virar uma aula engessada. E nem nessas explicações o narrador consegue resistir a provocar o leitor.
A escrita é deliberadamente rebuscada, cheia de maiúsculas, exageros, vocabulário antigo e humor ácido. Não é uma leitura que tenta esconder suas referências machadianas. Pelo contrário, conversa diretamente com elas e leva a ideia do defunto autor para dentro da história da ciência.
Terminei com a sensação de ter participado de um velório em que ninguém conseguiu permanecer respeitosamente calado. E ainda existe um pequeno sinal de que a paz do Panteão está com os dias contados.
Indico especialmente para quem gosta de sátira, história da ciência e matemática apresentada fora do formato convencional.

Disponível na Amazon e Kindle Unlimited.

Se você pudesse assistir ao acerto de contas de apenas um desses gênios no Além, quem escolheria?

 
Classificação: 5/5

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