Sinopse: Um cientista da memória começa a esquecer. Durante décadas, ele ensinou que a memória não é um registro fiel do passado, mas uma reconstrução frágil — editada, distorcida e reescrita cada vez que voltamos a ela. Agora, sentado à escrivaninha diante do rio, ele enfrenta o teste mais íntimo de sua vida: se já não pode confiar plenamente na própria mente, como preservar as pessoas, as ideias e as perdas que fizeram dele quem ele é? Antes de esquecer quem sou é um romance literário sobre memória, medicina, mentoria, amor e a formação — e dissolução — de um eu. No centro da história está um homem correndo contra o próprio desaparecimento. Ele escreve para lembrar Hendrik, o professor brilhante que um dia colocou um cérebro humano em suas mãos e lhe ensinou que conhecimento não significa nada até se tornar parte de quem somos. Escreve para compreender o amigo cuja máscara profissional impecável escondia um vazio que ninguém percebeu a tempo. E escreve para deixar, antes que seja tarde demais, a história de como aprendemos, como nos tornamos e o que resta de nós quando a memória começa a falhar. Entre a faculdade de medicina, a neurociência, a ambição profissional, o casamento, o luto e a devastação silenciosa da demência, este é um romance para leitores atraídos por histórias emocionalmente inteligentes sobre identidade, mortalidade, legado e a arquitetura frágil de uma vida humana. Uma pergunta assombra cada página: se a memória nos torna quem somos, o que somos quando ela começa a nos abandonar?
Em “Antes de Esquecer Quem Sou”, de C. F. Collares, acompanhamos um cientista da memória que começa a desconfiar das próprias lembranças. Enquanto observa as mudanças no professor que ajudou a formá-lo, ele escreve para preservar o que consegue reunir de sua trajetória.
Entre a medicina, o ensino e as relações pessoais, surge uma inquietação: quanto daquilo que somos depende da nossa capacidade de lembrar?
A posição desconfortável desse narrador. é algo que chama demais a atenção. Ele conhece os mecanismos da memória, sabe como uma lembrança pode ser reconstruída e, mesmo assim, precisa recorrer a ela para contar sua vida. Gostei de como essa contradição atravessa o relato, pois quando ele admite que pode ter reorganizado uma cena ou confundido uma data, minha atenção se volta também para a maneira como está contando. Sua autoridade científica convive com uma vulnerabilidade que ele nem sempre consegue admitir de imediato.
A relação com Hendrik dá um peso muito concreto às discussões. A cena em que o professor coloca um cérebro nas mãos do jovem estudante estabelece uma ligação que vai muito além da transmissão de conhecimento. O gesto de firmar aquelas mãos reaparece como referência de cuidado, responsabilidade e formação. Achei especialmente bonita a preocupação do narrador em reconhecer também o próprio pai, cujo afeto se expressa pelo trabalho e pelos silêncios. Cada um participa de quem ele se torna de um jeito diferente.
É um romance de ritmo reflexivo, com bastante espaço dedicado à neurociência, à filosofia e à educação médica. Em vários momentos, a narrativa se aproxima do ensaio, e a ação cede lugar a explicações e perguntas. Isso pede uma leitura atenta. As imagens da orquestra, do labirinto e dos espelhos ajudam a acompanhar conceitos abstratos, embora a retomada frequente das mesmas ideias torne algumas passagens mais demoradas.
Eline me pareceu importante justamente por trazer essas questões para situações vividas. Suas dúvidas sobre a profissional que está se tornando mostram o que uma formação pode exigir de alguém para além das provas. Também gostei de ver o narrador reconhecer os limites do próprio olhar sobre ela. Esse movimento abre espaço para que a estudante exista além do exemplo que ele gostaria de usar.
Para mim, as passagens sobre quem cuida são as que dão maior força emocional ao livro. Os pequenos ajustes de Annelies na convivência mostram o desgaste de uma relação que muda sem oferecer um momento claro para entender a perda.
Indico a quem aprecia romances reflexivos sobre memória, identidade e cuidado, e tem interesse nas relações entre aprender e tornar-se alguém.
Disponível na Amazon e Kindle Unlimited.
Quem ajudou a formar a pessoa que você é hoje?

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