Sobre o livro:
Sinopse: Sua vida perfeita é coisa do passado. Bons tempos: Yesteryear ― o romance mais aguardado e polêmico do ano. Uma esposa tradicional e mãe norte-americana acorda, de repente, suja, com frio, num lugar que se parece com sua casa e ao lado de pessoas que dizem ser sua família, mas presa à brutal realidade de 1855. Agora, ela precisa desvendar se esse pesadelo é uma farsa elaborada, um bizarro reality show ou algo muito mais sinistro. Natalie tem tudo: sua fé imovível, uma linda fazenda digna de Hollywood, seis filhos disputando sua atenção e um marido que, pelo menos, fica bem de botas de caubói. Não importa tanto o fato de que ela também tem babás e produtores atuando nos bastidores de sua vida perfeita, de que sua cozinha rústica esconde geladeiras e fornos industriais, nem de que seu marido é um herdeiro sem muitas habilidades. Eles são 100% tementes a Deus – se Ele proveu, ela fez por merecer! Não é de se admirar, portanto, que seus milhões de seguidores desejem a vida dela. Natalie lhes oferece o que eles mais querem: um mundo ideal. Escândalos são varridos para debaixo do tapete, onde devem ficar. E as “mulheres raivosas”? As elites privilegiadas da costa leste com diplomas da Ivy League que a chamam de iconoclasta antifeminista? Estão, todos eles, morrendo de inveja. Porque Natalie não apenas leva uma vida boa, ela tem a vida perfeita – e, por acaso, está usando isso para construir um império. Até que um dia ela acorda e se depara com uma realidade que não é a sua, apesar de parecer. A casa, o marido, os filhos – todos estão ali, mas algo está errado. Não há eletricidade, as crianças estão sujas e seu marido, antes um mauricinho inútil, agora é um fazendeiro idôneo. Se no dia anterior Natalie estava posando com potes de geleia caseira para o Instagram, agora precisa carregar lenha e lavar roupa à mão até seus dedos sangrarem. Teria ela se transformado, sem saber, na estrela do próprio reality show? Viajado no tempo? Está sendo testada por Deus? Pelo Diabo? E se, de repente, Nat realmente tiver que viver a vida que sempre fingiu ter? Seja qual for o motivo, essa não é a vida perfeita pela qual ela tanto batalhou – e da qual agora precisa escapar. Uma estreia arrebatadora e eletrizante, um romance tão engraçado quanto assustador, Bons tempos é um olhar perspicaz sobre tradição, fama, fé e a grande performance que é a feminilidade.
Resenha:
Em Yesteryear, de Caro Claire Burke, acompanhamos Natalie Heller Mills, uma influenciadora que transformou a vida na fazenda, a maternidade e o casamento cristão em uma vitrine de perfeição. Milhões acompanham sua rotina aparentemente simples, sustentada por dinheiro, funcionárias e uma produção cuidadosa. Até que ela acorda em uma versão assustadoramente diferente de sua casa, onde tudo indica que está em 1855. Agora, o passado que tanto romantizava exige dela muito mais do que uma boa imagem.
O que mais me chamou atenção foi a distância entre a Natalie que conversa com os seguidores e aquela que ouvimos por dentro. Ela fala de gratidão, mas calcula prestígio; prega modéstia, mas se considera superior; exalta a dedicação materna enquanto terceiriza boa parte do trabalho. A autora deixa essas contradições aparecerem na própria voz da personagem, sem precisar interromper a história para explicá-las. E essa voz é venenosa, sarcástica e cheia de justificativas convenientes.
Achei especialmente certeiros os trechos em que as respostas públicas de Natalie aparecem ao lado dos bastidores. A cozinha com aparência espontânea, a equipe fora do enquadramento e até o sorriso ensaiado mostram como a “autenticidade” pode ser fabricada. O livro entende que uma imagem de família perfeita também pode virar negócio, discurso político e instrumento de comparação entre mulheres.
Quando as facilidades desaparecem, as tarefas domésticas ganham peso, duração e desgaste. Fazer manteiga sem uma batedeira deixa de ser um conteúdo bonito para se tornar esforço físico. Gostei desse contraste porque a crítica à nostalgia sai das ideias e passa pelo corpo. O frio, o isolamento e a dependência tornam aquela vida rural sufocante, bem distante do cenário acolhedor vendido nas redes.
A narrativa alterna essa experiência com lembranças da formação de Natalie, do casamento e da construção de sua presença online. Isso amplia a personagem, embora também desacelere a investigação do que está acontecendo. O suspense avança junto com o retrato de uma mulher que insiste em controlar a interpretação de tudo, inclusive quando suas certezas já não dão conta da realidade.
Não é fácil acompanhar Natalie sem sentir incômodo. Mas foi justamente a combinação de inteligência, crueldade e autoengano que achei mais interessante. Eu indicaria a quem procura suspense psicológico com humor ácido e crítica social sobre maternidade, religião, poder e a fabricação de uma vida ideal. É uma leitura que exige desconfiar da narradora e olhar para o que ela prefere esconder.
Disponível na Amazon.
Você viveria no passado que romantiza nas redes?
Classificação: 4/5

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