Sinopse: A Letra Laranja é uma coletânea de 15 contos que dissecam o atrito inevitável entre a obsessão humana por métodos e o caos imprevisível da realidade. No centro de grande parte das histórias está Eugênio, um contador hiperracional e sistemático que tenta auditar a vida prática por meio de fórmulas, planilhas e jargões burocráticos. Da análise física da mecânica de uma coxinha em uma cantina escolar ao delírio analítico sobre o pompoarismo institucionalizado em um convento, as situações escalam rapidamente para fiascos públicos e paranoias sociais incontornáveis. Transitando pelo universo corporativo, pelo absurdo tecnológico dos algoritmos de bolso, e fechando com quebras de perspectiva psicológicas e claustrofóbicas, a obra de Mateus constrói uma comédia de erros ácida e moderna. Uma sátira refinada sobre como nossas tentativas de controle institucional e protocolar desmoronam diante da crudeza e do ridículo do cotidiano.
A Letra Laranja, de Mateus Mioto, reúne quinze contos que transformam situações cotidianas em impasses absurdos. Em boa parte deles, acompanhamos Eugênio, um contador que tenta organizar o mundo pela lógica, pelos números e pelos regulamentos. O problema é que as pessoas não funcionam como suas planilhas, e uma conversa aparentemente simples pode virar um desastre quando ele resolve demonstrar que está certo.
Foi essa distância entre o raciocínio dele e o efeito de suas atitudes que mais me chamou atenção. Eugênio consegue elaborar uma teoria sobre a maneira correta de comer uma coxinha, mas tem dificuldade para perceber quando deveria encerrar uma discussão. E o autor aproveita muito bem essa contradição: quanto mais o personagem explica, mais se compromete. Eu acompanhava suas justificativas já imaginando o constrangimento que estava por vir.
Gostei especialmente de como o vocabulário da contabilidade invade as relações pessoais. Um conflito vira um balanço de perdas e danos; uma tentativa de aproximação passa a ser tratada como operação estratégica. Em “Máfia do Amigo Secreto”, a ausência de reações de um colega no WhatsApp ganha proporções de investigação. É um detalhe muito atual, reconhecível, que expõe a necessidade de aprovação por trás daquela postura tão racional.
A escrita combina descrições minuciosas, comparações exageradas e diálogos em que ninguém parece disposto a ceder. O contraste entre a solenidade das explicações e a banalidade do problema produz boa parte do humor. Há também uma repetição desse mecanismo nos contos de Eugênio. Para mim, ela ajuda a reconhecer o personagem, embora a variedade de protagonistas e situações seja importante para dar outro ritmo ao conjunto.
“O Rei da Montanha” leva a obsessão por desempenho ao ciclismo e aos aplicativos de exercício. Já “Síndrome do Eco” acompanha um escritor abalado por comentários sobre sua originalidade. Esse último me interessou particularmente pela maneira como a opinião de um desconhecido começa a interferir na relação do personagem com a própria escrita. O livro encontra material tanto na burocracia quanto nas pequenas vaidades que as redes sociais amplificam.
O humor tem acidez e, em alguns momentos, provoca mais desconforto do que leveza. Nem sempre dá para ficar do lado de Eugênio, e achei essa ambiguidade um dos atrativos da leitura. Indicaria a quem gosta de contos brasileiros, sátira social e personagens que revelam suas contradições enquanto tentam justificar cada atitude.
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Qual situação cotidiana mais desafia a sua lógica?

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