Sinopse: A nova árvore de Natal da Praça da República, em Belém, nasceu bonita demais para ser inocente. Sob suas luzes vermelhas, a madeira pulsa, engole quem chega perto e devolve apenas reflexos de rostos que nunca deveriam estar ali. Alice, a fotógrafa contratada para registrar a inauguração, descobre que a praça, antigo cemitério de pobres e escravizados, nunca esqueceu seus mortos, e agora que a cidade acendeu as luzes, eles querem companhia.
Em “Luzes Vermelhas sobre Covas Rasas”, de Ellen Reys, Alice é uma fotógrafa contratada para registrar a inauguração de uma árvore de Natal na Praça da República, em Belém. O trabalho deveria render imagens bonitas para a prefeitura, mas o cheiro vindo do tronco e os detalhes que sua câmera capta começam a sugerir algo terrível. Sob a praça, existe um passado de sepultamentos e abandono que a decoração natalina não consegue encobrir.
O que mais me chamou atenção foi o uso de Belém na construção do medo. O calor úmido, o suor, os ambulantes, o barulho e a movimentação da praça dão uma presença muito concreta ao cenário. O desconforto vem antes mesmo de qualquer manifestação sobrenatural. Dá para entender por que Alice tenta atribuir suas percepções ao cansaço: naquele ambiente abafado, com contas atrasadas e trabalho para entregar, desconfiar dos próprios sentidos parece uma reação possível.
Também gostei da escolha de acompanhar uma fotógrafa, já que lice ganha para selecionar o que merece aparecer, e isso coloca sua profissão em conflito com aquilo que começa a enxergar. A orientação de registrar famílias felizes, enquanto sua atenção se volta para as estranhezas da árvore, cria uma tensão que atravessa o conto. A diferença entre as fotos que entrega e as que guarda para si diz bastante sobre esse impasse.
Vale comentar que o terror é bastante visual e físico. A madeira adquire texturas desconfortavelmente humanas, os enfeites deixam de parecer inofensivos e até as luzes contribuem para a sensação de ameaça. Ellen explora cheiro, temperatura e matéria orgânica para aproximar o leitor daquilo que Alice gostaria de manter à distância. Quem gosta de horror corporal encontra aqui imagens bem desagradáveis, no sentido que a proposta pede.
A tensão cresce pela insistência dos sinais e pela normalidade ao redor deles. Alice percebe, procura explicações e precisa continuar trabalhando. Enquanto isso, a festa segue sendo preparada. Para mim, essa convivência entre ameaça e rotina funciona especialmente bem: os pedidos por fotos bonitas continuam chegando quando já parece impossível olhar para aquela árvore com tranquilidade.
A crítica ao apagamento histórico dá peso ao horror. Dentro da narrativa, a praça foi embelezada sobre vidas tratadas como descartáveis, e o discurso oficial de uma “nova tradição” ganha um sentido incômodo. Em alguns momentos, achei que o texto explica essa relação além do necessário, porque as imagens já comunicam bastante.
Indico para quem procura um conto de terror brasileiro com atmosfera sufocante, horror corporal e crítica social em pleno Natal.
Disponível na Amazon e kindle Unlimited.
Você confiaria numa árvore que parece respirar?

Comentários