Sinopse: Nego a Dizer é uma narrativa poderosa e visceral que mergulha na complexa relação entre mãe e filha, traumas transmitidos de geração em geração e a busca por autenticidade e liberdade. A história é contada por duas narradoras principais: Marlene, a mãe, cuja vida profissional exemplar e ambiente privilegiado desmoronam após o nascimento de sua filha, e Simone, a filha, cuja jornada é marcada por uma personagem misteriosa e enigmática: Virgínia. Marlene, uma mulher de sucesso, vê sua vida desabar após o nascimento de Simone. A maternidade a leva a uma depressão profunda, e ela não consegue se conectar emocionalmente com sua filha. Sua repressão de desejos e sua falta de autenticidade em sua vida pessoal e profissional a levam a um estado de desespero e isolamento. Simone, por sua vez, cresce em meio a esse ambiente traumático. Enquanto luta para entender sua própria identidade, ela conta com a ajuda da figura enigmática chamada Virgínia. Quem é Virgínia? Por que ela parece dominar a vida de Simone? Essa personagem misteriosa se torna o centro de uma busca intensa por autenticidade, liberdade e, possivelmente, redenção. A narrativa não linear do livro permite que o leitor veja essa conexão de várias perspectivas, alternando entre os pensamentos e ações de Marlene e Simone. A ajuda de Virgínia é um ponto crucial nessa dinâmica, mas sua verdadeira natureza permanece um mistério até o final da narrativa. O leitor é convidado a desvendar o enigma de Virgínia, descobrindo como ela se conecta com os traumas e desejos reprimidos de Marlene e Simone. Com uma linguagem rica e detalhada, Nego a Dizer é uma obra que desafia os limites da narrativa tradicional, oferecendo uma visão crua e honesta da vida humana. Se você gosta de histórias que mergulham na complexidade das relações familiares e na busca por identidade, este livro é uma leitura obrigatória. Prepare-se para uma jornada intensa e emocionalmente carregada, onde a verdadeira luta não é com os outros, mas consigo mesmo. Nego a Dizer é mais do que um livro; é uma experiência que vai desafiar suas percepções e deixar marcas profundas em sua alma. E o mistério de Virgínia? Só a leitura revelará.
Em Nego a Dizer, de Jerusa Alves Furbino, Simone encontra dezenove diários e 133 pares de sapatos ao organizar os pertences da mãe, Marlene. Os cadernos revelam desejos que ela desconhecia e dão início a uma missão peculiar: realizar aquilo que a mãe teria reprimido. Nessa jornada, a presença enigmática de Virgínia traz novas perguntas sobre quem Simone é e o que procura ao tentar compreender a mulher que a criou.
Perceber como essa filha continua buscando aprovação materna até quando já não pode recebê-la é algo que chama muito a atenção na narrativa. Existe uma carência por trás de sua organização cuidadosa, dos sapatos separados e dos gestos que ela interpreta como provas de amor. Em vários momentos, fiquei pensando até onde tentar entender alguém pode nos afastar das nossas próprias necessidades.
As margaridas sintetizam muito bem essa relação. Uma flor oferecida com carinho passa a carregar rejeição, culpa e lembranças que mãe e filha registram de maneiras diferentes. Também me marcou o bolo de chocolate com morangos: o cuidado de Simone ao prepará-lo e a expectativa de compartilhá-lo dizem tanto sobre a falta de afeto quanto as palavras mais duras de Marlene.
A alternância entre as duas vozes e os recuos no tempo fazem a leitura avançar pela revisão do que acreditávamos saber. Marlene se apresenta como uma mulher competente, educada para ser exemplar, mas suas convicções sobre independência entram em conflito com a religião, o casamento e as expectativas da maternidade. Conhecer suas dores ajuda a compreender suas contradições, sem apagar a violência que chega à filha.
Os sapatos funcionam como uma imagem concreta dessas possibilidades de vida. Guardados, usados ou associados a experiências, eles dão forma aos desejos e à tentativa de Simone de ocupar o lugar da mãe. Belo Horizonte, especialmente o apartamento no Edifício Niemeyer, concentra as memórias familiares, enquanto o Rio oferece espaço para experimentar outras versões de si.
É importante saber que o erotismo ocupa bastante espaço, com linguagem explícita e situações de violência sexual. A sucessão de encontros e a descrição minuciosa dos calçados tornam alguns trechos mais repetitivos. Para mim, a relação entre mãe e filha concentra a força do livro, sobretudo quando o desejo de liberdade se mistura à necessidade de agradar e às histórias que cada uma conta para conseguir continuar vivendo.
Indico para quem procura ficção brasileira sobre vínculos familiares difíceis, culpa religiosa e identidade, e aceita acompanhar personagens contraditórias, sem respostas confortáveis.
Disponível: Amazon e Kindle Unlimited
Você tentaria realizar os desejos que sua mãe deixou num diário?

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