Sinopse: A assassina conta a sua versão da história O primeiro homem que amei se chamava Oton Straczinsky, um assassino, doze anos mais velho do que eu e vinculado à STASI. Além de amar Oton, eu o matei enforcado com sua gravata. Ele morreu montado e caído sobre mim, despejando seu peso sobre meu corpo, como tantas outras vezes em que transamos no chão do seu quarto Mas este não é apenas um romance sobre operações e assassinatos. De jovem clandestina na Alemanha dividida a infiltrada entre terroristas, de guarda-costas improvável de Herbert Marcuse na pretensiosa Paris de 1979 a agente lançada em uma caçada sangrenta em Beirute, Rachel atravessa serviços secretos, amantes, ladrões, artistas e intelectuais, traidores e fantasmas políticos, sobrevivendo à guerra invisível que marcou o século passado e moldou o mundo atual. Você pode não perdoar a Assassina de Berlim, mas não conseguirá deixar de acompanhar seu rastro de cadáveres, feridas e lembranças a cada identidade assumida e vida abandonada.
Em A Assassina de Berlim, de Camilo Farias, acompanhamos Rachel Rabinovich, uma mulher que atravessa a Guerra Fria entre operações de espionagem, identidades assumidas e lealdades difíceis de sustentar. Sua trajetória passa pela Alemanha dividida, por Paris e pelo Líbano em guerra. É ela quem conta essa história, colocando sua própria versão dos acontecimentos entre nós e a violência de que participa.
O que mais chama a atenção nessa proposta é justamente o espaço dado à voz de Rachel. Saber quem está narrando importa muito quando essa pessoa também tem tanto a explicar sobre as próprias escolhas. Sua perspectiva traz uma questão que considero central aqui: até que ponto conhecer as razões de alguém muda nosso julgamento sobre o que essa pessoa fez?
Rachel reúne características que tornam essa discussão interessante. É habilidosa, independente e capaz de decisões extremas, mas também estabelece relações que interferem em sua atuação. Os afetos entram em uma vida organizada em torno do segredo. Isso coloca amor e lealdade em um terreno complicado: como construir intimidade quando revelar quem você é pode comprometer sua sobrevivência?
A aproximação com Ingrid van der Saat, jornalista que inicialmente rejeita a violência, acrescenta outro ponto de tensão. As duas partem de posições diferentes diante dos conflitos políticos. Essa diferença abre espaço para observar como convicções são colocadas à prova quando deixam o campo das ideias e passam a orientar decisões concretas, com consequências para outras pessoas.
A presença de Herbert Marcuse como personagem é um detalhe bem interessante. Os debates sobre liberdade e violência aproximam a atuação de Rachel das ideias que circulavam naquele período. A ambientação histórica ganha, assim, uma função ligada ao conflito: fronteiras, organizações e disputas políticas condicionam as possibilidades de ação da protagonista.
O atrativo está nessa combinação entre thriller de espionagem e dilemas morais. Infiltrações e missões oferecem o perigo imediato, enquanto as relações levantam dúvidas sobre confiança, responsabilidade e os limites de uma causa. É uma proposta que pede atenção tanto ao que os personagens defendem quanto ao que aceitam fazer em nome disso.
Indico especialmente a quem procura ficção histórica com espionagem, conflitos políticos e uma protagonista cujas motivações merecem ser examinadas sem que isso signifique absolvê-la. Rachel tem a palavra. O julgamento continua com o leitor.
Uma causa pode justificar a violência?

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